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Impressões e devaneios sobre Cuba: dissertação resultado do debate sobre o país

Matheus Alencastro1 

Dezembro, 2020

Após intensivas rodadas de debate sobre Cuba, abrangedoras de variados aspectos sociais da ilha como cultura, economia, política, relações exteriores e afins, durante os meses de outubro e novembro, os membros do grupo PET – Economia adquiriram razoável conhecimento sobre a história e a atual conjuntura desse país. De tal maneira, torna-se plausível o presente texto a fim de gerar algum material concreto sobre a experiência adquirida. 

O debate sobre a questão cubana, como ressaltado pelo professor Demian Castro², permanece relevante do ponto de vista global até os dias atuais. Isso porque, ao nos propormos a discutir o tema, aspectos contemporâneos da geopolítica mundial permearam a conversa desde o início. Questões que muitas vezes são consideradas “ultrapassadas” como socialismo versus capitalismo, planificação econômica ou ideais revolucionários e questões consideradas “mais” pertinentes para os desafios da humanidade na segunda década do século XXI como preservação ambiental, desigualdade econômica e a sobrevivência da democracia e dos ideais liberais burgueses se entrelaçaram e demonstraram a relevância desse tipo de reflexão.  

Tal conclusão é passível de demonstração devido à urgência do tema da derrocada do capitalismo nesse início de século. É imediatamente lógico ligar as permanentes crises do sistema a uma falha de percurso generalizada. Nesse sentido, temas centrais para a humanidade no passado retornam à discussão de maneira contundente e fornecem, no mínimo, possíveis soluções. Debater Cuba, confere a oportunidade aos que o fazem de distanciamento da ágora, caracterizada pelo embaçamento da realidade própria aos viventes do presente, de maneira que miopias conjunturais são, de certa forma, atenuadas. Ou seja, é permitida a reflexão sobre possíveis contornos que, ao se debater China e Estados Unidos, por exemplo, eram antes impossíveis. É mais valoroso, do ponto de vista social, as liberdades de consumo fornecidas pelo sistema capitalista ou as garantias universais propostas pelos sistemas socialistas? A realização individual está no acesso a itens de consumo ou no direito inalienável à saúde e educação? É possível uma emancipação latino-americana de maneira que as instituições sejam gestadas internamente e não importadas? Há meios de alcançarmos enfim a nossa independência econômica ou seremos para sempre reféns do Balanço de Pagamentos? Ã‰ imprescindível ao sistema comunista o desenvolvimento prévio de forças produtivas e consequente nível capitalista avançado? Algum tipo de â€œconforto”, nos moldes vigentes, é congruente com a preservação do planeta Terra? Esses são alguns dos questionamentos que foram abordados em nossas discussões e nos permitiram expandir a percepção sobre a realidade. 

Entretanto, não se deve cair na falha intelectual do romantismo. Foram também discutidos temas que impõem limites à utópica realização social idealizada na revolução cubana. Conforme apresentado pela obra “Cuba no Século XXI – Dilemas da Revolução”, utilizada como referência em nossos debates, há na sociedade descontentamentos e cerceamentos. Não apenas pelo bloqueio imperialista, mas também por questões intrínsecas a configuração social. Por exemplo, foi notado pelos autores a homofobia presente na sociedade cubana herdeira do ideal do “homem revolucionário”. Ainda, há uma constante demanda para o incremento de bens de consumo, principalmente pelas gerações mais jovens. Há censura dentro das universidades e uma constante vigilância estatal. O acesso dos jovens aos postos de tomada de decisão é limitado e alguns se encontram desconectados da política. Além disso, a infraestrutura é precária e o acesso à itens industriais é escasso.  

Apesar disso, existe, no imaginário coletivo, a intenção de se manter viva a revolução e as conquistas por ela obtidas. Os cubanos são conscientes das suas vitórias e os alicerces da revolução não parecem estar ameaçados. Esse espírito coletivo se alimenta justamente da comparação com outras nações, principalmente com os vizinhos do sul e do norte. Ambos assolados pela desigualdade generalizada, fruto dos processos históricos de colonização e exploração mas também consequência das mais recentes políticas econômicas neoliberais que infiltraram a agenda dessas sociedades a partir da década de 80. Ou seja, o cidadão cubano é provido de informações para decidir pela manutenção do sistema atual. 

Ainda, compete destacar o caráter de contínua transformação e aprimoramento do sistema, assim como é esperado de qualquer sociedade. A revolução não é petrificada e se molda a partir dos problemas que se apresentam. Conforme Farhat (2020), percebe-se que houve reiteradas tentativas de adequar o sistema de modo a permitir algum nível de liberalismo econômico que fosse beneficial ao projeto cubano nos últimos anos. O estado vem procurado adaptar a política econômica de maneira a produzir um excedente maior para a sociedade, aumentando sua capacidade produtiva, com a finalidade de fornecer uma melhor qualidade de vida a seus cidadãos. Além disso, Cuba tem se demonstrado eficiente na gestão de setores que muitas vezes são considerados sensíveis nas economias capitalistas, principalmente nas periféricas, como educação, saúde e segurança pública, por ter sido capaz de elaborar as suas próprias soluções e se valer de imposições externas para produzir saídas criativas e, por vezes, melhores do que as existentes no mundo ocidental.  

Finalmente, pode-se concluir os benefícios de um povo ter a coragem de construir o seu ideal próprio em detrimento da mera subordinação às potências mundiais. Tamanha decisão não é, em nenhum aspecto, fácil, como Cuba e outros países (que talvez não tenham tido a mesma sorte), estão aí para demonstrar. Não se trata de nacionalismo barato ou de extremismos sem sentido prático mas na verdade do direito de um povo de ser capaz de buscar a sua realização, que pode ou não estar em acordo com os países dominantes. Isso porque essa busca resulta na conferência de sentido e direção a um povo. De certa maneira, Ã© uma prevenção contra a transformação de um povo em refém da inerte e apática situação que estão jogados países como o Brasil e os latino americanos de maneira geral, que parecem estar cegos buscando a realização no mimetismo institucional que nada mais faz do que criar a ilusão de desenvolvimento enquanto que apenas perpetuam a dependência. 

NOTAS

1Estudante Bolsista do Grupo PET Economia.

2Professor Tutor do Grupo PET Economia.

REFERÊNCIAS 

FARHAT, F. O Sistema Socioeconômico Cubano (1959-2018): Concepção, evolução e situação. Campinas: Unicamp, 2020. 

SANTOS, F., VASCONCELOS, J., DESSOTTI, F. Cuba no Século XXI: Dilemas da Revolução. São Paulo: Editora Elefante, 2018. 

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